Home O Parlamentar Defesa animal Fazendo o bem

É consenso que fazer o bem, o correto, é sempre o melhor caminho, o desejável. Na prática, contudo, as coisas não são tão simples assim. O agir implica concessões, renúncias, e nem sempre o fazer é visto com bons olhos. Como já diz a sabedoria popular, ‘”ninguém atira pedras em árvores que não dão frutos”. Só que levar a pedrada, muitas vezes, desanima e desencanta aquele que faz enquanto os demais se omitem.

Uma amiga minha, cujo nome protejo aqui, embora minha vontade seja de parabenizar publicamente a atitude que tomou, encontrou, na porta da casa dela, uma pobre gatinha que, miando baixinho, estava em agonia. Os transeuntes, embora aparentemente comovidos, limitavam-se a fazer expressões de dó e se lamentavam, mas apenas ela fez algo de concreto. Incapaz de seguir sabendo que o animal provavelmente morreria se fosse deixado ali, ela pegou o animal e levou até o veterinário, assumindo lá a responsabilidade pelos custos.

Apenas depois disso, de a gatinha já estar medicada e com chances de sobreviver, é que ela se deu conta de que talvez os custos fossem altos e até poderiam colocá-la em uma situação financeira difícil. De toda forma, ela não se arrependeu e manteve a palavra empenhada com a clínica, autorizando que todo o necessário fosse feito, já que o quadro era preocupante.

O fato é que, ao buscar ajuda, mais até emocional do que financeira, ouviu de alguns amigos e familiares que ela não deveria ter feito isso e que, se ninguém mais tinha ajudado, se a gata não era dela, ela deveria ter deixado lá mesmo. Disseram ainda que, se ela não tinha condições, então que o melhor era não ter assumido dívida. Quando ela me contou isso, desolada, sentia-se incompreendida, mas não estava arrependida. Apesar de tudo, das palavras rudes, tenho certeza de que faria de novo.

Eu fico muito triste quando tomo conhecimento de fatos como esses. Primeiro porque o fato de haver animais pelas ruas é fruto do descaso de gente que descarta animais de estimação como se fossem lixo e, segundo, porque o bem, o agir correto, nem sempre encontra acolhimento. Todos querem ser bons na teoria, mas ninguém quer pôr a mão no bolso ou mesmo dispor de parte de seu tempo.

Sei que não dá para ajudar todos que precisam, sejam bicho ou gente. Há tanto a fazer e tão pouca gente disposta, tão poucos recursos disponíveis. Contudo, se cada um fizesse um pouco que fosse, a sua parte ao menos, o mundo seria um lugar menos árido, menos cruel. E isso nem de longe diz respeito apenas ao fato que narrei aqui ou mesmo à proteção animal, pois, de omissão em omissão, somos todos cúmplices nas mazelas que nos afligem.

Consegui ajudar minha amiga mobilizando algumas pessoas, sempre as mesmas, contudo, dispostas a contribuir. Infelizmente, enquanto eu escrevia esse texto, recebi a notícia de que a gatinha teve uma parada cardíaca e não resistiu. Chegamos tarde demais, mas a corrente do bem que atos assim geram deve, em algum lugar do universo, importar ou nos redimir de tantas maldades e negligência que atingem os mais frágeis de criação.

Para mim, ao menos, o que fica, é que falta solidariedade à humanidade, inclusive com aqueles que optam pelos caminhos mais difíceis do bem fazer. Parece que é sempre mais fácil esticar a mão para atirar uma pedra do que juntá-las para construir alguma coisa…

Cinthya Nunes é advogada, professora universitária, Diretora de Integração na Faculdade Damásio e cronista. Publica artigos semanalmente em diversos jornais do interior de São Paulo e  colabora com Blogs de outros estados e de outros países. É Membro da Academia Linense de Letras.–cinthyanvs@gmail.com

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